Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Um post recente do Corcunda levantou um problema subjacente a grande parte da Direita e a um certo conservadorismo: considerar que as formas políticas do Estado e do governo dos povos têm em si justificações e fins que os distinguem. Ou seja, acreditar que, por exemplo, a monarquia é por si só capaz de proporcionar, desenvolver e manter um sistema de valores porque este lhe é irremediavelmente inerente.

 

É uma teoria errada que tem minado o mundo moderno. Nenhuma forma política de organização social detém a prática do Bem ou do Mal, na medida em que as aparências e os mecanismos reais que assume não são virtudes próprias que se bastem. Qualquer um desses regimes e governos é antes resultado de premissas que lhe são anteriores e não o contrário. Se assim não fosse, que diríamos das comunidades monásticas que tudo colocam em comum? Que são materialistas porque vivem num sistema comunista?! E das monarquias europeias? Que são Estados conservadores porque têm rei?!

 

O problema parece portanto residir nas prioridades da acção política. Se uns querem atingir a concretização ideológica, outros procuram nas formas comunitárias a obediência a algo transcendente; se uns têm o prisma numa cartilha de pressupostos nascidos da vontade - de muitos ou de poucos - para organizar as instituições como finalidade última, outros partem das finalidades últimas para avaliar a justiça das instituições. É por isso que o comunismo monástico é justo e o soviético não, bem como a monarquia tradicional católica será tendencialmente justa, mas não as actuais. Um rei ou um abade só exercerão verdadeira justiça se lhe encontrarem a fonte e só promoverão a paz se souberem qual é o seu critério perfeito.

 

A par disto, a Europa bebe hoje em todos os poços envenenados do Bloco de Leste, influenciando a própria Direita. Para a paz, encontraram a inquestinável tolerância; para a justiça, inventaram o absoluto igualitarismo. São estes os dois eixos ideológicos inquestionáveis em que assenta o projecto totalitário da UE - e que ironia o Tratado de Lisboa entrar em vigor num 1º de Dezembro. Segue uma linha de pensamento que dita que, sendo os homens iguais, rejeitando-se distinções morais resultantes de uma noção objectiva do pecado, devem permanecer limitados na esfera privada à satisfação das necessidades materiais, em prol da pacificação da massa e sob o juizo do Estado divinizado porque omnipresente.

 

Ora, é perante isto que os católicos se distanciam da quase totalidade dos monárquicos de hoje. Sabem que só há bom juizo em Cristo e que o que importa é que a Sua Lei reine, através do poder temporal. Sabem que só de Deus vem esse poder e não da falácia do número, do relativismo, do subjectivismo e do ateísmo militante que estes levam a cabo. Sabem, sobretudo, que só podem aceitar as formas se os os limites forem os correctos, como aceitariam uma democracia se orientada por uma Constituição Cristã.

 

A este propósito, e porque hoje se comemoram 369 da restauração da independencia, o António lembra bem estas palavras de Pio XI na encíclica Urbi Arcano, que nos monstram por que prisma continua a ser importante defender a Pátria contra as ameaças externas:

 

No dia em que os Estados e os governos regulamentarem a sua vida política quer interna quer externa, com base nos ensinamentos e nos preceitos de Jesus-Cristo, então, e só então, poderão usufruir de uma verdadeira paz, manterão relações de mútua confiança e conseguirão resolver pacificamente os seus problemas.

 

A Pátria só faz sentido se for de Cristo, e é esse sentido que tem de ser resgatado através da monarquia. Uma mesa de pernas para o ar continua a ser uma mesa, mas não serve as finalidades para que foi feita. Assim está Portugal.



publicado por Afonso Miguel às 18:53 | link do post | comentar

1 comentário:
De António Bastos a 2 de Dezembro de 2009 às 12:30
Gostei muito deste post pela clareza na exposição de ideias. De facto se o Critério de ordenação da sociedade não assentar  num absoluto e, por isso, for imutável nada pode ser conseguido. Ocorre-me aquilo que te disse outro dia a propósito da frase do texto que te enviei de que "um Estado para ser de direito tem de ser democrático", que imensa gargalhada que tal afirmação me suscita!  Eu diria mesmo que para ser de direito tem de ter por soberano Deus e não o mal-fadado "povo soberano", isto é o homem. Gostei muito do último parágrafo, não é só a pátria é toda a nossa vida. O exemplo da mesa está bem visto.


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