Domingo, 15 de Novembro de 2009

Na mesma altura em que se sabe que foram realizados 10.000 mil abortos em Portugal no primeiro semestre deste ano; em que os bispos portugueses defendem abertamente, embora não oficialmente, que se devem referendar e debater posições morais inegociáveis em relação ao "casamento" de homossexuais e à eutanásia; neste mesmo momento, vemos na televisão um sacerdote católico a subscrever uma coisa chamada Carta pela Compaixão, na mesquita de Lisboa. Um documento que, ao bom estílo do ecumenismo modernista, começa logo desta forma:


El principio de compasión permanece en el corazón de todas las tradiciones religiosas, éticas y espirituales, y siempre nos pide tratar a los otros como nos gustaría ser tratados.

 

Num mundo sedento de doutrina, um padre admite publicamente que a compaixão, virtude que só atinge significado e plenitude verdadeiros no caminho cristão, é coisa comum a todas as expressões religiosas, éticas e espirituais, sejam elas quais forem e em pé de igualdade. Fê-lo ao lado de pessoas que defendem o direito à carnificina daqueles 10.000 seres humanos, à morte assistida e à legalização do emparelhamento de gays. Mas nada nos espante. É só mais uma heresia - para não dizer apostasia - enquanto esperamos a vinda de Bento XVI...

 

Entretanto, perante os factos, a defesa da única boa Tradição em terras lusas afigura-se, mais uma vez, como tarefa de heróis.

 

***

 

Aditamento:

 

A carta diz ainda:

 

Es además necesario en la vida pública y en la privada abstenerse de causar dolor de manera sistemática y categórica, actuar o hablar de manera violenta, obrar con mala intención, manejarse priorizando el interés personal, explotar o denegar los derechos básicos e incitar al odio denigrando a los otros – aunque sean enemigos - actuar de manera contraria, implica negar nuestra humanidad. Reconocemos haber fallado en vivir con compasión y sabemos que alguien ha incluso incrementado la miseria humana en nombre de la religión.

 

É caso para lembrar as palavras de São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja:

 

“Tive uma grande alegria com a chegada de meu caríssimo irmão e colega, o abade Bernardo de Grandselve, pelas gratas notícias que me trouxe de vossa constância e lealdade no serviço que deveis à vossa Fé (...), bem como no ódio e zelo que alimentais contra os hereges, de modo que cada um de vós pode repetir sem mentira aquilo do Profeta:


‘Porventura não aborrecia eu, Senhor, os que Vos odeiam? E não me consumia por causa dos Vossos inimigos? Com ódio perfeito os aborrecia, e tive-os por meus inimigos, só por saber que eram Vossos inimigos’ (Sl CXXXVIII, 21-22).


Dou graças a Deus porque se dignou abençoar minha ida até vós e fez que minha permanência em vossa companhia, embora breve, produzisse algum bem.


Pela verdade que vos manifestamos, não só com palavras, mas também por meio de prodígios, foram descobertos os lobos que, introduzidos entre vós, sob disfarce de ovelhas, faziam verdadeira devastação em vosso povo e devoravam as almas, tal como um homem esfaimado deglute o pão fresco e engole a carne das ovelhas que matou.


E juntamente com os lobos descobrimos as raposas que devastavam a vinha preciosíssima do Senhor, a saber, vossa nobre cidade.

Pena é que, embora descobertos, esses inimigos ainda não tenham sido apanhados!


Ao trabalho, pois, caríssimos meus: consagrai-vos a persegui-los sem afrouxar, acossai-os, encurralai-os, até dar cabo de todos e fazê-los desaparecer de vossa terra, pois não vos podeis entregar ao repouso enquanto houver à espreita serpentes que vos rondam a casa.


Permanecem eles de emboscada, escondidos com os poderosos e ricos deste mundo, para assaltar e matar os inocentes.


São salteadores e ladrões, como observa o Senhor no Evangelho; gente perdida, que cifra todo o seu prazer em perder os demais.


São corruptores ao mesmo tempo de vossos bons costumes e de vossa fé. Bem se diz que ‘as conversas más corrompem os bons costumes’ (I Cor XV, 33), e que ‘a linguagem desses tais estende sua corrupção com a rapidez da gangrena’ (II Tm II,17)”.

 

( De uma carta de São Bernardo, Doutor da Igreja, aos habitantes de Toulouse, In “Obras Completas del Doctor Melifluo, San Bernardo, Abad de Claraval”, tradução espanhola do Pe. Jaime Pons, S. J. – Rafael Casulleras Librero-Editor: Barcelona, 1929 , vol. V, “Epistolário”, carta CCXLII, p. 505)


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publicado por Afonso Miguel às 21:46 | link do post | comentar

2 comentários:
De António Bastos a 16 de Novembro de 2009 às 01:42
Magníficas palavras de S. Bernardo, amigo do nosso fundador, e tão actuais.  Ao escandalo do silêncio dos nossos "pastores" perante o massacre dos inocentes veio juntar-se o pedido de referendo para "que haja um debate sobre essa questão", como ouvi no outro dia na rádio. Debater o quê? "Posições morais inegociáveis" como muito bem referes? Esses senhores pactuam com tudo isso, estão vergados ao regime e, com ele, à modernidade, tornando-se assim cumplices dela. Que mais há a esperar dessa conferência episcopal?


De Afonso Miguel a 17 de Novembro de 2009 às 21:12
Há esperar muita heresia e apostasia no futuro. E conhecendo eu o estado em que se encontram os nossos seminários, não são de esperar melhorias significativas para as próximas gerações. Ou seja, tem de haver um valente puxão de orelhas a esta gente. Bento XVI está quase aí a chegar...


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