Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

A decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sobre os crucifixos nas salas de aula é uma ode extraordinária ao secularismo, como premissa essencial de um Estado que queira acatar uma norma internacionalmente imposta de princípios dados como fundamentais e indiscutíveis. Sobretudo, é um espelho da mecânica desse secularismo e das consequências para a liberdade religiosa que se adivinham no mundo ocidental.

 

O cristianismo é, intrinsecamente, uma religião iniciática. A Igreja tem no seu percurso e na sua vivência esta lógica explícita de que os descendentes dos crentes devem ser educados e iniciados nos mistérios da Fé desde tenra idade, como símbolo e prática real de um processo de identificação com Cristo e o Seu Corpo militante, em que se confia a Tradição Católica às novas gerações. Deste percurso feito antes da maioridade civil fazem parte, por exemplo, o Baptismo e a primeira comunhão sacramental, bem como, por vezes, a própria Confirmação. São três momentos em que, não considerando o Estado estarem os cidadãos em pleno uso de faculdades de decisão e sendo assim dependentes dos parentes, estes optam, à luz da lei, pelos filhos e encaminham-nos num sentido bem definido do ponto de vista dos valores.

 

Acontece que a decisão daquele tribunal europeu alega que os crucifixos nas escolas violam o direito dos pais enquanto educadores, mas também a liberdade religiosa das crianças. E a pergunta que surge de imediato é esta: até que ponto vai afinal o poder paternal face ao direito consagrado dos filhos. A contradição é óbvia mas pode ter um futuro risonho. Se atendermos ao caso concreto da Igreja, que ideia imporá um dia uma instância superior, como o Tribunal dos Direitos, aos Estado membros da UE sobre a vida iniciática nas famílias cristãs? Que esta viola aquele direito de consciência das crianças? Então e o direito dos pais? Qual é o seu limite em relacção aos valores de tolerância do Estado?

 

É esta a cara oculta do secularismo que vai saindo das sombras e mostrando o decálogo humanista obrigatório para o mundo moderno. Servirem-se das coisas públicas, as escolas ou até mesmo as ruas, para defender a  isenção de um Estado indefinível nas finalidades - é essa a sua finalidade, em si, a ser ensinada - é uma coisa; mas se nos entrarem nos templos e nos quiserem ilegalizar, como é previsível que aconteça, então é que o caldo entorna de vez! Tenhamos nós bispos à altura, um Papa forte e os rins cingidos.



publicado por Afonso Miguel às 22:38 | link do post | comentar

3 comentários:
De Zorro a 6 de Novembro de 2009 às 13:35
Lá teríamos de voltar a pegar na espada, como os Cruzados, e reconquistar novamente estas terras de infiéis.
Em nome dos valores Cristãos.
Contra o secularismo maçónico.
A Bem da Nação!


De Harms a 6 de Novembro de 2009 às 22:04
Entrar, poderão fazê-lo. Vamos ver depois se conseguirão sair - isso talvez seja mais complicado. Saúde!


De Luís Cardoso a 7 de Novembro de 2009 às 17:02
Trata-se de uma medida anti-religiosa para qual devemos olhar como uma jogada de engenharia social contra a instituição que mais obstáculos levanta à construção do homem novo sonhado pelos progressistas, instituição que foi apontada pelo maior estratega da revolução cultural marxista, Gramsci, como o inimigo número um da revolução.
Retirando aos pais a possibilidade de educar e de preparar os seus filhos para resistir às campanhas de lavagem cerebral em curso na escola pública - processo que talvez constitua o principal objectivo dessa instituição -, fica o caminho aberto para a tão falada mudança de mentalidades de que o nosso mundo supostamente precisa; ao mesmo tempo formam um batalhão de pequenos jacobinos, adestrados pela escola pública para educar os seus pais para as maravilhas do progressismo.
Trata-se de um processo semelhante ao usado pelos otomanos contra os cristãos dos Balcãs: roubar-lhes os filhos para desprover a comunidade cristã de elementos capazes de oferecer uma verdadeira resistência ao poder constituído e opressor, construindo, em  simultâneo, um exército de jovens fanáticos, defensores do poder que oprime os seus pais.
Em suma: o estado laico, republicano e socialista tem em curso o seu programa de constituição de um exército de janízaros (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jan%C3%ADzaro).
Cumprimentos,


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