Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

A ilusão que leva boa parte dos católicos a alinhar por ideologias descendentes do marxismo é a crença desmesurada no mito da grande inversão socialista como premissa da Doutrina Social da Igreja. Pergunte-se a qualquer fiel letrado se a Verdade é "graça divina" e tem "patente registada", e a resposta será, quase invariavelmente, que cada um tem a sua e a dá a quem quiser e que isso será, em si, o dogmático e inviolável valor da sacrossanta democracia.

 

Esta crença na (i)lógica marxista da privatização da metafísica e colectivização estatal das relações económicas, é autodestrutiva e ingénua. O Cristianismo, desde uma ponta à outra da hierarquia eclesial, vive hoje afogado em preconceitos distantes dos seus: confunde paciência com tolerância; amor com mariquice; caridade com socialismo. Não seria de esperar que, nestas condições, conseguisse ainda distinguir valorativamente a moral divina das demais concepções de Bem e Mal, muito menos que os fundamentos de uma certa dialéctica social-democrata sejam antagónicos entre si e tudo o resto.

 

Mas o problema está principalmente na ingenuidade. É ela que promove a auto-destruição. É ela que não esclarece sobre a mentira daquela inversão entre o privado e o público. Se antes, na "idade das trevas", se apoiava a constituição comunitária iluminada pelo dever do único critério de Bem (Cristo), hoje esse Bem é uma carta de princípios elaborada pelo homem, que quer garantir direitos universais provenientes da vontade antropocentrista. E é aqui que se constata a contradição e a formulação do mito. Para quem julga que a liberdade de pensamento é a grande vitória da modernidade, como se os reis medievais tivessem aparelhos que nos lessem a mentem, basta tentar contestar publicamente a Declaração daqueles direitos e esperar pelas consequências discriminatórias.

 

Portanto, o facto é simples: os Estados apoderaram-se do elemento religioso da comunidade para o transformar no valor intocável da tolerância - pescadinha de rabo na boca à boa moda humanista hodierna. Foi nesta mesmíssima medida que Henrique VIII abraçou o poder de proclamar a dogmática, para servir os seus caprichos transformados em direitos através de uma capacidade decisória que inventou.

 

Se não me fiz entender, vão ler o Corcunda.



publicado por Afonso Miguel às 21:42 | link do post | comentar

3 comentários:
De Portal União a 12 de Setembro de 2009 às 12:59
Esta nova igreja(pós-Vaticano II) está  contaminada pelo marxismo.   O Comunismo/socialismo e pentecostalismo  são  sementes que os próprios bispos(?) ajudam a regar.

Enquanto na verdadeira Igreja  (pré-CVII) o comunismo/socialismo  era condenado, hoje, nesta nova igreja não só é tolerado como incentivado!

Apocalipse now!

Lisardo


De António Bastos a 14 de Setembro de 2009 às 01:12
Parabéns pelo post, amigo Afonso. Gostei, entre muitas outras, da frase "o problema está na ingenuidade". Conheço tantos casos desses, e de bons católicos para quem que não vêem qualquer incompatibilidade entre a sua fé e o regime vigente. Gostei também quando escreveste sobre aquilo que o libertino o do Henrique VIII fez, e que foi o fez e faz a república francesa, o que mostra bem que o cerne da questão não é a forma de regime, em si mesmo, mas o facto de querer privatizar a Verdade. É por isso que nós, não deixando de ser monárquicos naturalmente, preferimos a República Corporativa, à Monarquia liberal ou à inglesa, ou ainda à espanhola, como muito bem sabes.


De Afonso Miguel a 14 de Setembro de 2009 às 13:07
Nem mais, amigo. Não combatemos regimes ou por regimes, mas por algo que lhes é anterior. Óbvio que, em Portugal, só a monarquia tradicional poderia devolver a obediência histórica ao Critério.

A privatização do transcendente é hoje uma falsa questão nos moldes em que é apresentada. A suposta tolerância nesta matéria é ela própria uma concepção particular, mas que implica uma obediência pública a esse pressuposto: só há tolerância para os tolerantes, porque o critério é a concepção de tolerância conveniente ao tempo. Ora, isto é coisa contraditória de outro senhor que não o nosso, e por isso tem de ser combatido.

Um forte abraço


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