Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

João Gomes de Almeida remata um post de resposta a Manuel Alegre com a máxima abrilina do "povo é quem mais ordena". Antes, no início do texto, tinha defendido não ser possível haver monarquia sem democracia, por só esta ser supostamente imparcial e, assim, para todos. Há aqui uma enorme contradição e uma falha conceptual gritante (para nem falar na histórica), embora seja compreensível pela ânsia de apresentar mediaticamente a alternativa real como promotora dos tais dogmas que, por outro lado, se diz terem de ser abandonados...

 

O facto é este: a monarquia é absolutamente antidemocrática no sentido falacioso em que lhe querem impor a aparente democraticidade. Ou seja, a monarquia pode e deve ser para todos, mas não pode em caso algum ser de todos, muito menos de uma maioria que ponha como única justificação o seu número. É neste sentido que se torna legitimo questionar a razão das monarquias actuais em Espanha e Inglaterra, por exemplo, se são estes os dois países europeus em que a modernidade mais tem apostado para experimentar determinadas alterações civilizacionais relacionadas com a destruição cultural e moral daquelas comunidades políticas. No entanto, o rol de exemplos a seguir do João Gomes de Almeida passa também por elas e faz-nos, por isso, adivinhar em que democracia está assente a proposta monárquica em Portugal: a de hoje, sem tirar nem pôr.

 

O problema é que não serve termos um rei que seja apenas um presidente hereditário de uma república - digamo-lo pela milionésima vez. É necessário que este regime assegure antes uma série de premissas inalteráveis por qualquer parlamento eleito ou outro órgão proveniente da vontade isolada da maioria, por serem valores invioláveis. E enquanto os nossos monárquicos não entenderem isto, não vão passar de pessoas preocupadas apenas com a saúde da democracia partidocrática e de uma constituição à mercê do despotismo ideológico, julgando que um rei confere, como que por mágica, uma certa estabilidade pelo sua continuidade (e resta saber aquilo a que dá continuidade, consoante o que o povo ordenar...). Ou seja, coroa-se o que por cá já existe, à espera que o sistema melhore e se anule a si mesmo. No fundo, à espera de mais credibilidade para esse sistema, pintando-o de uma coisa que não é e nunca será, quando o que precisamos é de verdadeira mudança reaccionária em todos os aspectos.

 

Apelar a uma monarquia democrática é muito perigoso, meus amigos, ainda para mais quando nada de substancialmente alternativo se apresenta à que já existe. Pensem nisto antes de defenderem seja o que for porque, se acreditam mesmo que o povo nunca é parvo e sabe sempre o que é melhor, então hão-de acreditar também que saberá que não vai querer mais do mesmo, troquem-se as bandeiras que se trocarem.



publicado por Afonso Miguel às 21:11 | link do post | comentar

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