Domingo, 29 de Março de 2009
Num tom mais sério que o do post anterior, convém analisar as palavras de D. Ilídio, bispo de Viseu, relativamente ao seu alcance e gravidade disfarçadas. Em artigo publicado no sítio da diocese que lhe foi confiada, D. Ilídio fala sobre o uso do preservativo, a pretexto da polémica iniciada pelos media durante a visita papal a África, para admitir a obrigação ética de usar aquele contraceptivo em determinados casos particulares, sem contudo se opor abertamente ao que considera ser a regra geral da moral sexual católica recentemente invocada pelo Santo Padre.

Esta posição do bispo de Viseu trouxe-me imediatamente à memória a daqueles que há bem pouco tempo defendiam a liberalização do aborto, mas ressalvavam sempre não o apoiarem como solução. Quando o debate sobre esta questão se iniciou a propósito do referendo que se seguia, quase todos os sectores que acorreram a apelar ao voto favorável à liberalização se diziam, simultaneamente, avessos a que o aborto fosse classificado como boa prática. Ou seja, admitiam que o flagelo de matar um ser humano não poderia ser apresentado como antídoto para os males que o antecedem, querendo contudo que a sua prática deixasse de ser criminalizada. Óbvio que sabemos que o flagelo de que falavam muitos desses sectores era apenas o da mulher, que de facto existe e é tremendo mas infinitamente menor do que o de tirar a vida a um ser humano inocente.

O que D. Ilídio escreveu sobre o preservativo e a aplicação concreta da moral sexual católica bebe da mesma lógica sinistra dos que defendiam o aborto dentro destas premissas absolutamente contraditórias, e é isso que torna a situação muito grave. Vejamos que o bispo vem à praça pública defender que aquela aplicação não deve ser condenada pela Igreja em determinados casos que fujam à orientação moral que esta propõe. E D. Ilídio vai mais longe, considerando que o uso do preservativo é mesmo uma obrigação ética quando a pessoa se encontra infectada pelo HIV, abrindo inclusivamente as portas à possibilidade do parceiro do seropositivo não ter sequer conhecimento da sua doença mortal.

Esta falta de raciocínio lógico e a consequente conivência com um acto potencialmente criminoso têm que ser apontadas, sob pena de pairar a suspeita de que o texto de D. Ilídio em nada fere as palavras do Sumo Pontífice, ou até as favorece ou completa. Aliás, é notória a preocupação do bispo de Viseu quando tenta justificar a sua posição com a do Santo Padre, procurando fazer crer que em nada divergem. Mais, aponta mesmo o dedo à comunicação social por ter mal interpretado a questão. Não deixando de ser verdade, o que este faz no sítio da Diocese de Viseu é, isso sim, a mais acutilante ferida na mensagem de Bento XVI, disfarçando-se de perfeitamente concordante com as palavras do Papa mas rendendo-se às modernas exigências do mundo que apelam a uma moderação podre nestas matérias.

Mas é aqui que a Igreja tem que ser radical. Em primeiro lugar, porque é impossível querer limitar a orientação moral católica, seja em que campo for, a um mero conjunto de regras generalistas que, em confronto com a vida, tenham que ser contornadas consoante umas ou outras condicionantes. Ou a proposta da moral católica chega a todos os campos dessa vida humana, iluminando-a, aconselhando-a e condenando o erro em que todos incorremos, ou deixa de ser moral universal. O que D. Ilídio acaba por precisamente admitir é que a moral católica não pode ser aplicada a determinados aspectos da vida sexual e que a atitude ética é aquela que lhe é contrária.

Em segundo lugar, e já dentro da excepção aberta - de que os infectados têm direito a manter uma vida sexual activa, mesmo que o parceiro não tenha conhecimento da doença, devendo usar o preservativo - D. Ilídio não esclarece qual é a proposta moral de relacionamento e prática sexual feita pela Igreja. Limita-se a considerar que a fidelidade se baseia em confiança mútua - o que não condiz sequer com a possibilidade do seropositivo esconder a sua condição - mas não especifica em que balizas essa confiança deve ser levada a cabo. Ou seja, D. Ilídio reduz a sexualidade a uma necessidade básica, à qual a pessoa pode não ser capaz de renunciar, e não a enquadra no amor e na família monogâmica, partes integrantes da moral católica para esta matéria. Isto, quando o que deveria ter feito era apontar a aceitação da moral cristã como único critério bom para aquela sexualidade, única proposta plausível para a não propagação do vírus, quer pela fidelidade conjugal – sublinhe-se aqui o conjugal – quer pela abstinência. Para mais, mesmo não a aceitando, é fácil entender que o preservativo é falível e não impede em absoluto a infecção, o que contradiz também a inabalável fé modernista neste meio contraceptivo.

Portanto, existe não só um claríssimo desvio relativamente à doutrina, como uma tentativa, deliberada ou não, de deturpar as palavras de Bento XVI de uma forma que nem a comunicação social ou os opinion makers ousaram fazer: a sofistica. Mais preocupante é que D. Manuel Clemente também já tenha admitido a mesma linha de pensamento e que D. José Policarpo não tenha querido pronunciar-se sobre o caso, fazendo adivinhar uma reacção idêntica ou que em pouco fuja à apostasia de D. Ilídio.

Está para chegar a hora em que Bento XVI se pronunciará definitivamente sobre o estado do episcopado português que, em variadíssimas matérias, tem demonstrado uma profunda cisão com Roma. É bom que ponham os olhos no levantamento das excomunhões aos bispos da FSSPX, no desejo de diálogo e de aprofundamento dos problemas que a fraternidade tem vindo sempre a levantar, bem como na carta que Sua Santidade endereçou a todos os bispos falando sobre as reacções irracionais que esse sinal de reconciliação gerou. A grande clarificação não tardará a chegar e apontará, a pouco e pouco, quem obedece ainda à cátedra de Pedro. Um prelado que escreva que o Papa não pode legislar para casos particulares e, no mesmo texto, acabe por substituí-lo nessa função, muito dificilmente fará parte dos eleitos.

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publicado por Afonso Miguel às 22:12 | link do post | comentar

30 comentários:
De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 00:30
Edward Green e método ABC.Não tenho mais nada a dizer.


De JSarto a 30 de Março de 2009 às 00:38
A ambiguidade de Dom Manuel Clemente sobre o assunto também me desiludiu muitíssimo; e se este é o nosso melhor bispo, então o episcopado português é mesmo uma perfeita nódoa de hereges.

Quanto a Dom Ilídio pouco mais há a dizer: assume-se como um membro da contra-igreja católica e em cisma doutrinário com Roma. A hermenêutica da ruptura do espírito do V2 é assim mesmo.


De Afonso Miguel a 30 de Março de 2009 às 00:56
Ainda há tempos ouvi D. Manuel dizer na TV que a pobreza retira dignidade à condição humana, como se o voto de pobreza fosse absurdo... Bem sei que sempre foi visto como o mais conservador de todos os bispos portugueses, mas nada mais há a esperar dele.


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 01:10
"A Beleza de uma Identidade que Fascina"

por Nuno Serras Pereira

Dezembro 4, 2006

"A nossa missão é a Vida, a sua defesa, a sua promoção, a sua celebração. A nossa identidade é a festiva sinfonia policromática que a vida humana irradia e reverbera, maravilhando, fascinando e arrebatando pela verdade da sua formosura. Por isso esconjuramos a negrura da morte, exorcizamos as trevas que nos submergem e aborrecemos o cinzentismo imperante, encantando com o colorido exuberante da vida. A alegria é o nosso logótipo, a beleza a nossa mensagem, o Não uma solicitação jovial à convivialidade e cordialidade do banquete da vida. Recusamos o sobrolho carregado, a cara carrancuda, o olhar assustado. Não somos buldogues nazis nem escravos amedrontados. Somos a floração primaveril das fragrâncias aprazíveis e amáveis que a vida generosamente oferece. Somos o prado verdejante e sombreado de seculares carvalheiras, frondosas tílias e largos plátanos onde os espíritos se sentem apaziguados. Somos o rio sereno de margens prenhes de salgueiros e canaviais onde se ouvem as sonoridades murmurosas e felizes do amor materno e o chilrear contente das crianças, onde se reaprende a ternura. Somos a corrente impetuosa, fraguada e espumante, entre penedias e fraguedos, em que se revela o bem-querer arrojado e audaz do marido pela mulher, do pai pelo filho/a, da mãe pelos mesmos, e no qual se revigoram as forças para os duros trabalhos árduos da responsabilidade diligente e cuidada. Somos o futuro venturoso e sadio entregues às auroras coloridas do já que anunciam o ainda não definitivo de uma plenitude de felicidade na eternidade.


Será, certamente, necessário apontar o mal, denunciar a mentira, mostrar a negra crueldade necrófila. Mas esse é o logótipo dos cinzentos abortófilos; não, seguramente, o que eles patenteiam, mas o que é objectivamente inerente às suas palavras e actos. Recobrir as suas máscaras com o horror imundo e perverso das consequências das suas propostas, não é falsear o rosto do seu combate mas, antes, um dissolver das caraças que permite mostrá-lo na sua verdade."

Nuno Serras Pereira a Cardeal Patriarca já !


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 01:11
"Ainda há tempos ouvi D. Manuel dizer na TV que a pobreza retira dignidade à condição humana, como se o voto de pobreza fosse absurdo"

Falas assim porque comes todos os dias...


De Afonso Miguel a 30 de Março de 2009 às 01:18
É apenas porque se a dignidade humana depender da sua pobreza ou riqueza materiais - se por ela medirmos essa dignidade - talvez se torne menor crime matar um pobre.


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 01:51
Vocês de facto têm razão.E a primeira a tê-la foi,ironicamente,a Papisa Ateia.Bento XVI está mesmo contra o Concílio Vaticano II.Esfreguem as mãos de contentes.E não é de agora.É do tempo da aprovação da Declaração "Dominus Iesus",de 6/8/2000,elaborada e subscrita por um tal Joseph Ratzinger,Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé,como se pode inequivocamente concluir do seguinte passo:

"Os Padres do Concílio Vaticano II, debruçando-se sobre o tema da verdadeira religião, afirmaram: « Acreditamos que esta única verdadeira religião se verifica na Igreja Católica e Apostólica..."

Há "apenas" um "pequeno problema":
Não é isso que consta nas actas do Concílio Vaticano II:

"A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica".

O sentido do texto,tal como decorreu do espírito desse Concílio,não era o de dizer que a Igreja de Cristo só está representada na Igreja Católica,mas que também o está na ICAR.
E tanto assim é que,de outra forma,não faria sentido,a não ser por fraude intelectual,a propalada intenção ecuménica sequencial ao Concílio Vaticano II.
O que consta,pois,na Dominus Iesus,subvertendo o Espírito do CVII,é muito feio.
Tão feio que Ratzinger não se vai livrar,mais tarde ou mais cedo,de ser mostrado "urbi et orbe" como exactamente é.
A Verdade vem sempre à tona.Vocês têm efectivamente razão quando afirmam que Bento XVI é "vosso".Mas olhem que ser "vosso" nestas condições nem é recomendável nem augura bom Futuro.Deus,às vezes,escreve direito por linhas tortas.Mas não é parvo...


De JSarto a 30 de Março de 2009 às 11:10
Há "apenas" um "pequeno problema":
Não é isso que consta nas actas do Concílio Vaticano II:

"A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica".

O "pequeno" problema é outro: a Igreja Católica não começou com o Vaticano II e antes deste jamais ensinou que "a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica", mas ao invés que "a Igreja de Cristo é a Igreja Católica". Portanto, asserção supra citada é contrária à tradição e, como tal, falsa. Assim, tem razão Sua Santidade em defender o que defende.


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 13:07
O "pequeno problema" subsiste.De facto não ficou escrito nas actas do CVII,nem que "a Igreja de Cristo é a Igreja Católica",nem foi esse o espírito da norma consagrada.Mas esta é uma muito pouco edificante história para todos quantos,à sucapa,foram paulatinamente subvertendo o vedadeiro sentido do CVII.Porém,os autores da subversão teológica já estão identifciados.A começar pela personagem chamada Joseph Ratzinger.Fiquem com ele à vontade,embora para muitos outros católicos o subversor não seja nada recomendável.


De João Cadete a 30 de Março de 2009 às 17:48
Neste momento, penso que só a Rainha de Portugal pode salvar-nos destas investidas do Maligno. Os Bispos portugueses estão a mostrar a quem servem, e a Deus à Igreja não é com certeza.

É impossível querer agradar ao mundo e a Deus ao mesmo tempo. Não foi por acaso que a Igreja sempre determinou que o mundo, juntamente com o demónio e a carne, é um dos inimigos da alma.

Os erros doutrinais de certos Senhores Bispos são gritantes. Merecem ser denunciados e, acima de tudo, deveriam merecer uma chamada de atenção especial por parte de Roma.

Por nós, pouco haverá a fazer além de rezar muito por eles, pela Santa Igreja e pelo Santo Padre.

Felizmente, a Igreja não se preocupa com a opinião da maioria ou com o que é socialmente aceitável e politicamente correcto. Apenas com a Verdade.

Mas há quem se envergonhe da Doutrina da Igreja Católica e tenha medo da Verdade. Há quem prefere consentir o erro e a mentira, para agradar ao mundo.

Os cultuadores do mundo, adoradores do homem, os que cantam os louvores da criatura dizem-se pela vida, apresentam-se como sendo por Deus, mas em contradição com a Santa Doutrina da Igreja.

Como servir a dois senhores, sendo um o Criador, pricípio e fim de todas as coisas, eterno e imutável, e o outro uma criatura que dança ao sabor das modas, corrompido pelo pecado?

De que lado combatemos, afinal?

Ou pela Verdade, ou pela mentira.
Ou pela Luz, ou pelas Trevas.
Ou preto ou branco. No que respeita a Fé e Moral,não há cinzentos.

Pela Igreja, por Deus;
Pelo mundo, pelo Demónio.

De que lado queremos estar?

Mater Castissima, ora pro nobis!


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