Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Ao ler um texto de um amigo sobre a nossa Madre-Hispânia e os dois braços peninsulares da cristandade, detenho-me na Esperança e na Saudade que escreveu serem em Sardinha "a essência do sentimento português". Detenho-me e não posso deixar de pensar em que graça maior vivemos e a que providência devemos gratidão por sermos Lusos, que é o mesmo que dizer que pertencemos a uma raça de alma com tamanha missão divina que a incomensurabilidade que a sustenta só pode por nós ser vislumbrada.

 

Desconheço até que ponto nos lembramos, no intimo, do dever em que fomos consagrados, se o reconhecemos sequer. Não sei quanto nos esquecemos do que somos, impresso que está no que fomos e nos manteve em comunidade dos que pertencem a algo transcendente por partilharem a noção da sua Justiça. Mas este texto, como outros, ajudou-me a redescobrir um certo "sentimento" de comunhão que a modernidade nos vai fazendo crer ser caduco, mas que manifesta um amor, por vezes inalcançável, à nossa genética espiritual assente no valor da sua razão superior.

 

Aquela Esperança, que é virtude Cristã, bebe de uma certeza que só a Tradição nos pode passar para mergulharmos no Amor de Deus. Não uma qualquer tradição, que o tradicionalismo não se compadece com uma aplicação ideológica a todas as formas de pensar o mundo. Trata-se da passagem de um depósito de Verdade que contém um Critério moral que conduz ao Outro. É a Tradição da Igreja, mandatada por Aquele que é a própria Verdade encarnada, o Caminho para a encontrar e a Vida que nela experimentamos. A Saudade, característica do povo estabelecido na "cara da Europa", dá-nos a vivência desta virtude da Esperança, como sendo portadores de uma Revelação do passado que é tão presente e tão futura quanto o intemporal elemento que carrega.

 

Talvez seja a Saudade portuguesa a principal interpretação comunitária da Fé feita Caridade através de uma Esperança que nos levou à evangelização/civilização dos que nos eram distantes. Talvez seja o descodificador da Cristandade que sabemos não ser nossa propriedade, mas universal; uma palavra exclusiva para exprimirmos de que forma sentimos e vivemos aquilo que mandata a nossa acção comum. Saudade daquilo que a Tradição nos faz saber e do que a Tradição nos impele a querer. Saudade do que foi e do que há-de vir, espaços ligados pela Pedra Angular que sustenta um mesmo edifício sagrado em todos os tempos.

 

Se cairmos na tentação de julgar que Portugal morreu, basta-nos olhar a Cruz para ver a nossa bandeira ao vento, mesmo que só esvoace no mais profundo recanto do coração. É nele que o Dogma se manterá e não desaparecerá na mesma medida em que Deus não morre. Porque o "sentimento português" não é de poder, mas de servir o Poder.



publicado por Afonso Miguel às 20:20 | link do post | comentar

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