Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Padre Nuno Serras Pereira, sobre as incongruências do legislador (31/05/2009):

 

1. Durante anos a fio fomos massacrados, por defendermos as crianças nascituras, com a acusação de que queríamos mandar as mulheres para a prisão. Suscitou-se um grande alvoroço no país que, envergonhado, corou e trejeitou ímpetos varonis em defesa das suas damas. Era lá concebível admitir que uma mulher pudesse cometer um crime, ser eventualmente julgada e hipoteticamente ser sentenciada com pena de prisão. E assim ouvíamos constantemente afirmações difundidas quotidianamente que nos garantiam que não havia mulheres criminosas, que ninguém abortava de ânimo leve, que matar/abortar o próprio filho/a era um direito que o estado devia garantir através dos seus serviços de saúde, com o dinheiro de todos os contribuintes, etc., etc.

 

Fez-se um referendo que não foi vinculativo e é obviamente inválido quer do ponto de vista jurídico quer político. Os legisladores maquinaram uma “lei” iníqua que o presidente da república iniquamente promulgou, certamente em nome dos superiores interesses das madames, que ficaram assim inibidas de serem lançadas em calabouços.

 

Ora acontece que esta mesma gente, estes mesmos legisladores, depois de tudo isto, decretaram do alto da sua enorme humanidade que qualquer mulher que desse umas palmadas em seus filhos poderia sofrer o vexame de ser condenada a pena de prisão, de um a cinco anos.

 

De modo que uma mulher que abortando decapite, escangalhe, envenene, esposteje o seu filho não comete nenhum crime. Porém, aquela que lhe bata é uma criminosa, merecedora de ser arremessada na mais sombria das enxovias.

 

2. Eu não obstante a minha intelijumentice apombocada chamo modestamente a atenção do legislador para o que me parece uma manifesta incongruência. Se for esse o caso não convirá, de modo nenhum, que o povoléu descubra a vossa incoerência. Também não diz com a alta honra da dignidade em que estais investidos uma mera anulação daquilo que com tanta fadiga, determinação e faiscantes luzes congeminastes. Por isso no secreto desta missiva vos proponho uma estratégia que já demonstrou, como vimos acima, a sua eficácia.

 

Ponto é que arranjeis umas mulheres que contem os horrores da palmada clandestina, feita em vãos de escada, à socapa dos vizinhos, devido a receio de serem denunciadas. Detalhem as suas angústias e sofrimentos, a vergonha, o medo. Proclamem aos quatro ventos que nenhuma mulher dá palmadas de ânimo leve, que são obrigadas a fazê-lo, que este castigo clandestino é um flagelo, que muitas mulheres ficaram com as mãos a arder, prejudicando a sua saúde, que é necessário despenalizá-lo até aos 10 anos de idade. Afinal os castigos corporais deveriam ser infligidos nos estabelecimentos de saúde, onde numa sala apropriada e insonorizada – quem pode suportar os guinchos das criaturas – fossem concedidas às mães umas luvas para não se magoarem, podendo de seguida ir à sua vida, voltando somente quando a birra estivesse terminada. Claro que antes de cada sessão de palmadas, a mulher teria de fazer uma radiografia, que não lhe seria mostrada, às nádegas dos filhos e teria um período de três dias para se decidir. Uma vez dada a correcção as mães teriam uma licença de maternidade até 30 dias para recuperarem do traumatismo.

 

Creiam-me amigos políticos e legisladores (nosso Senhor manda-nos amar os nossos inimigos) que com esta manobra ninguém repararia na vossa incoerência mas tão só no vosso grandíssimo humanismo.


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publicado por Afonso Miguel às 22:26 | link do post | comentar

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