Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Temos hoje um fosso enorme entre cristianismo e política, envolto em incompatibilidades de parte a parte. Se o cristianismo não se revê nas formas e regimes políticos da modernidade, por estarem ao serviço de algo alheio ao Bem, essas formas e regimes não conseguem encaixar em si o cristianismo, ainda que possam dizer quere-lo como ordenador de uma vida comunitária pacífica e segura.

 

Dos poucos católicos sérios que conheço pessoalmente, a grande parte não tem jeito para as coisas da partidocracia ou para as notícias que esta alimenta nos media tradicionais. Num qualquer jantar em que ponhamos a conversa em dia, descaímos sempre para o que temos em comum: a "vida interna" da Igreja. Passamos umas boas duas ou três horas a discorrer sobre canto litúrgico, música sacra e liturgia em geral. Raramente ultrapassamos estes temas, a não ser para fazer breves incursões pela filosofia ou pela história, com umas "bocas" pelo meio contra o estado do tempo. De resto, sente-se sempre um âmbiente de completo e propositado alheamento do que se vai passando nos templos pagãos. E não encontramos melhor nas máquinas clientelares da república democrática. Os que por lá andam e frequentam as suas sedes passam as noites de plenário e discutir a questiúncula do interesse sectário e das liturgias que lhe estão inerentes. Se o assunto resvala para alguma coisa mais séria, se alguém se atreve a pedir a palavra para introduzir um elemento verdadeiramente fracturante, ficam todos a olhar como burros para um palácio que, de tanto luzir, enquadra-se mal numa cidade manchada pelo culto do erro. Depois temos os outros, que se fazem amigos das duas trincheiras mas que servem apenas à que ganha terreno.

 

Não sei se esta situação é triste ou não. Talvez seja, por indiciar que o cristianismo não tem já qualquer poder na sociedade dos homens; talvez não, por nos deixar aquela réstia de esperança por haver quem não mistures alhos com bugalhos e sinta necessidade de preservar algo num cansaço do mundo e dos seus fóruns, rejeitando que sujem um encontro com amigos chegados. Mas, no fundo, acabam por ser duas faces da mesma moeda, demasiado enclausuradas e ignorantes uma da outra, o que só é benéfico para uma das partes. Os que andam mais misturados com o mundo mas mantêm uma honestidade intelectual minimamente sólida, ficam no meio: num realismo que tentam pautar por um critério do qual só podem esperar infinita misericórdia. E é assim que penso serem mais cristãos, sem falsos beatismos ou progressismos à Rangel.



publicado por Afonso Miguel às 21:48 | link do post | comentar

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