Sábado, 30 de Maio de 2009

No dia 28 de Maio de 2009, volvidos 83 anos do de 1926, foi aprovado na Assembleia da República o "Testamento Vital". Bem podíamos pensar tratar-se da última palavra do moribundo candidato socialista, o incomparável avô cantigas, mas é coisa mais grave: abriu-se a porta para a eutanásia, ferindo o dever de quem faz assistência médica, como função verdadeiramente vital, bem como o de conservarmos a vida até ao limite das possibilidades pelo valor inalienável que ela acarreta. Temos agora a morte a pedido, consoante a vontade queria ou não valorizar o que nos parecia inquestionável.

 

Quando esse valor da vida passa a estar dependente de um sentimento de poder, muito ao jeito de Nietzsche, que mais não é do que a satisfação de uma liberdade escravizada pelo "querer" em vez de se libertar na obediência do "dever", passa a ser "natural" que a natureza esteja aprisionada num relativismo individualista, garantido por um direito artificial e tendencialmente universalista. A Nação como entidade moral, ou comunidade de seres que partilhem o mesmo critério de Verdade e a partir dele ordenem a sociedade, deixa de existir e cede lugar a um movimento contrário assente na auto-satisfação. Todas as vertentes da existência ficam dependentes das condicionantes a que estão sujeitas: não se deixa nascer e ajuda-se a morrer porque alguém, por um qualquer motivo, assim o quer. O valor da opinião ultrapassa o do Bem.

 

É nesta realidade que vivemos. Quer queiramos quer não, a Pátria é hoje tudo menos aquela entidade moral. Portugal, enquanto comunidade, transformou-se, a par e passo com a restante Europa, num contratualismo que só encontra limites nas balizas da gratificação gratuita operadas na democracia jacobina. A Verdade, o Bem e a Moral que deles surge são desprezados, negados e remetidos para o foro da consciência atomizada, como se a colectiva não necessitasse da sua força para atingir algo do Bem Comum. Não admira, portanto, que a liberdade de não dever matar seja ultrapassada pela de querer morrer "assistidamente". Como habitual, trocaram os nomes, como fizeram no caso do aborto, e o que se resumiria num pedido de ajuda ao suicídio transforma-se em direito vital de decidir sobre algo que já não reconhecemos como absolutamente Bom, independentemente das circunstâncias em que se encontre e da vontade do próprio ou dos outros.

 

O Anti-Portugal - feliz expressão do amigo Corcunda - passa por isto. O Anti-Portugal, um 25 que em nada corresponde à noção nacionalista do Maio de 26, aponta nesta direcção de caminhos mortíferos. E como me disse o mesmo senhor da protuberância dorsal, é começar a escrever um verdadeiro testamento vital em que reclamemos o direito a que não nos desliguem as máquinas, não vá o tempo encarregar-se de transformar a decisão de viver numa solução extraordinária.


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publicado por Afonso Miguel às 20:09 | link do post | comentar

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