Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Hoje, o mesmo interveniente escreve no Cachimbo de Magritte sobre a pouca seriedade com que os países da UE se vêem a si próprios, sendo talvez essa uma das principais razões para acatarem com tamanho regozijo a transferência de poderes políticos, legislativos, governativos e de soberania para estruturas internacionais, sem pestanejar. Mais uma vez concordo, mas vou mais longe: trata-se de uma destruição das identidades pátrias, que arruína a auto-estima e a necessidade de independência na medida em que cresce.

 

Esta perda de identidade, ou da noção da sua existência, dá-se sobretudo ao nível do esvaziamento constitucional de elementos que sejam critérios definidores da comunidade política, conferindo-lhe sentido. Quando a nossa lei fundamental portuguesa assenta no pressuposto de que somos um regime e de que esse regime permite a revisão daquele texto, mediante votação numa câmara eleita pelas massas votantes, assume que tem como único valor de critério a ideologia tolerante do número e o relativo e incerto resultado que esta provoca. É o reino da tolerância como virtude maior, a tal que Paulo Rangel diz ser o sentimento comum da federação europeia, constituindo-se como elo de ligação para a "manutenção da paz".

 

O problema desta visão constitucional, que certamente vingará no texto que futuramente servirá de base legislativa aos membros da União, é que apregoa o rompimento de certos limites anteriormente estabelecidos para impor outros que impeçam uma concepção contrária a estes. Ou seja, baliza tudo numa cegueira ideológica que não consegue explicar que a tolerância não pode ser um valor, porque se anula a ela própria ao não permitir nada que ultrapasse as apertadas barreiras que afastam qualquer tentativa de contestação. A tolerância não aceita o intolerante, transformando-se no mais patético fundamento político alguma vez propagandeado, enquanto abarca o sistema social-democrata (o caso português é paradigmático de um socialismo constitucional conjugado com um neoliberalismo real) na mesma ilógica. A ilógica é a indefinição interna do valor para encontrá-lo exclusivamente na negação do que lhe é oposto.

 

E os resultados deste desastre teórico são práticos: o culto da tolerância torna-se equivalente a qualquer outra ideologia exportável, até embater em algo que não tolere e lhe justifique a guerra. Não tenho dúvidas de que se o projecto expansionista deste critério - sem raízes absolutamente nenhumas e puramente artificial - encontrar legitimo opositor à altura, a UE resultará na mais belicista experiencia europeia, muito a exemplo daquilo em que infelizmente se tornaram os EUA. Aliás, a este propósito se equaciona na iluminada mente de muita gente a criação de forças armadas federais que executem o que apelidam de "missões de paz", incursões que grande parte das vezes não passam de invasão e pilhagem económica sob o pretexto da democratização. Imaginem o que aconteceria à Turquia se não fosse um estado democrático; sendo, e pressupondo a ideologia da tolerância, deixa de haver importância alguma no facto de ser um país islâmico.

 

O ponto é pois o da tolerância não só não ser uma virtude, como também não existir como realidade transversal ao sentimento dos povos europeus. Portanto, só o será na medida em que as identidades pátrias forem sendo destruídas gradualmente, quer pelo esquecimento (a intenção de não referir as raizes cristãs na constituição federal é sintomática) quer pela formatação mental através de métodos de intimidação e terrorismo intelectual. Porque, no fundo, quando o muro de Berlim caiu não foi tanto para destruir o império soviético, mas para adapta-lo e expandi-lo até às fronteiras ocidentais, consumando em boa parte os objectivos russos de destruição e substituição de tudo por um totalitarismo. Acabarão por fazer a vontade a Estaline e criar um Super Estado global, num estilo muito cool à moda do comunismo bloquista de cara lavada. A "gente séria", se a houver, não terá outra alternativa que não seja a de pegar em armas e reclamar uma secessão que se apresente como um mal menor. A Igreja que se cuide...

 

(continua)


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publicado por Afonso Miguel às 22:56 | link do post | comentar

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