Segunda-feira, 16 de Março de 2009
O "sentimento de poder" de que Nietzsche fala é a auto-idolatria, um encontrar da fonte do critério no homem, numa lógica pagã e mitológica. Não admitindo que o poder lhe foi dado pelo Criador, o homem deslumbra-se na possibilidade inventada de ser o próprio Deus e de dar um qualquer sentido à realidade consoante a norma que mais lhe aumente o "sentimento".

Esta substituição de Deus pelo egocentrismo individualista - a que hoje pomposamente chamam de "humanismo", como se fosse a grande virtude tolerante da humanidade - é pois evidente em Nietzsche, mas permitam-me arriscar discordando da categorização filosófica que lhe foi imposta. Reparemos que Nietzsche afirma que Deus morreu, não que este não existe. Talvez haja aqui uma compreensão da inevitabilidade do Ser divino como fonte de todo o poder. Contudo, o que sucede em Nietzsche não é a negação daquele Outro, mas a recusa de encará-Lo e de sofrer com a sua Verdade - o caminho deste conhecimento implica sempre o pathos do fiat voluntas tua. Até a projecção do Super-Homem, que mais não é que o poderoso tecnocrata moderno que garante a pacificação segundo a sua própria concepção de justiça, acarreta uma antevisão do espírito que hoje se rende à satisfação da sua vontade e dos perigos de a não regular no sentido oposto ao do domínio autocrata.

Nietzsche sabia da necessidade de uma constituição que não estivesse à mercê das convenções. Ainda assim, sabia igualmente que a razão da queda do anjo era a inveja: Lúcifer é expulso da presença de Deus porque queria ser como Deus. Nietzsche sabe ainda que há fundamento inquestionável na divisa de S. Miguel "Quis ut Deus?". No entanto, no que não acredita é que ao homem seja possível resistir à tentação demoníaca de colocar o dedo na constituição da comunidade, isto é, que o homem é tendencialmente protestante e que esse protestantismo é, também ele, tendencialmente surrealista.

Portanto, a reavaliação que é necessária para a compreensão de Nietzsche é que este, acima de tudo, se rendeu à fraqueza humana e ao cansaço do espanto perante a Verdade. Nietzsche não era ateu, mas era ateísta; não era descrente, mas acreditava profundamente que a única via possível e alcançável era a do "nada", a do niilismo. Nietzsche desistiu da Verdade, não porque não a reconhecesse, mas porque escolheu não sofrer servi-la e porque, em último caso, já não lhe importava sequer que esta existisse ou não.


publicado por Afonso Miguel às 21:33 | link do post | comentar

2 comentários:
De António Bastos a 17 de Março de 2009 às 00:41
Muito interessante e instrutivo este texto. A posição de Nietzche espelha muito bem a do homem moderno na sua "recusa de encara-Lo" e, por isso, carregar com Ele a cruz.
Um abraço


De Afonso Miguel a 17 de Março de 2009 às 01:03
Sobretudo,meu amigo, é a recusa de encarar que a maior dor do espanto com a Verdade é a de sentir o peso do pecado que, bem vistas as coisas, é tudo o que se afasta (com maior ou menor grau de distância e gravidade) do "voluntas tua". E que suportou Cristo na Cruz senão os pecados do mundo?

Um abraço


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