Sábado, 25 de Abril de 2009
Dizem por aí que há saúde na política portuguesa porque existe oposição. Seria mais sério dizerem que há saúde no regime democrático, que é hoje toda a política, ou pelo menos a que nos é permitida.

Se olharmos atentamente e procurarmos uma contestação ao sistema, não a vemos. Podem vir mil bloquistas, comunistas ou democratas-cristãos, que não lhes vislumbramos ponta de oposição ao estabelecido. Por mais que critiquem os dois partidos hegemónicos, que vão alternando o poder conforme os acordos e as campanhas chantagistas que desenvolvem, a acção que praticam permanece toda dentro dos limites do estabelecido: são facções do aparelho, uma espécie de correntes de pensamento dentro de um partido único, com pequenas diferenças a marcar a agenda mediática e a alimentar a esperança de que há alternativas.

A verdade é que a democracia não admite nada para além das suas fronteiras. Quando a constituição proíbe a organização de grupos fascistas, e quando simultaneamente se promove que isso equivale a prevenir tudo o que anti-democrático, garante-se a inexistência, legal ou underground, de opinião contrário à própria constituição. Evita-se que o regime que essa constituição consagra não seja atacado ou posto sequer em causa, pela via da inviabilização de qualquer oposição real.

Reparem na dialéctica partidária e digam-me se alguém se arvora para além das fronteiras do regime. O que ouvimos constantemente, quer à esquerda quer à direita, é a intenção de melhorar o sistema, mas ninguém aparece a querer desmantela-lo e a apresentar uma alternativa decente. Ninguém aponta o dedo à constituição e ao seu pressuposto democrático. E o que o CDS fez há tempos quando propôs a alteração do preâmbulo foi um fogo de vista ridículo que em nada modificaria o socialismo reinante. Corajoso seria atacar o dogma democratista que permanece na lei fundamental portuguesa. E isso não acontece por uma razão muito simples: a câmara com poderes para o fazer negar-se-ia a ela própria e a esse poder no mesmo instante.

É esta a prisão em que vivemos. Ou alinhamos nas malhas no regime, aceitando as limitações ideológicas que nos impõe sempre disfarçadas de garantes da liberdade, ou movemo-nos por fora, sujeitos à vigilância da ditadura democrática. Face a isto, não é certamente de estranhar que a grande maioria dos monárquicos em Portugal tenham escolhido a subserviência ao sistema político que a república promove, sob pena de uma existência em catacumbas pouco próprias das aspirações de alguns. O PPM é só a face mais escabrosa desta realidade, mas pululam aos magotes na Causa Real.

No 35º aniversário do golpe de estado perpetrado a 25 de Abril de 1974, há que pensar seriamente nas formas de resistência. Há que tentar definir uma doutrina reaccionária que nos sirva de base para a acção futura. Há, sobretudo, que reavivar a coragem de não temer a situação em que vivemos, de dizer sempre a verdade, de tentar esclarecer, de servir. Que todos não somos demais para restaurar o critério português, inscrito na sua génese cristã. Que grande tributo prestaríamos ao Santo Condestável se, definitivamente, lançássemos mãos à obra.


publicado por Afonso Miguel às 17:54 | link do post | comentar

3 comentários:
De Magdalia a 25 de Abril de 2009 às 21:34
"há que pensar seriamente nas formas de resistência. Há que tentar definir uma doutrina reaccionária que nos sirva de base para a acção futura."

E que doutrina seria essa? Alguma ideia?

Excelente post.


De Afonso Miguel a 25 de Abril de 2009 às 23:21
E a Magdalia não sabe já qual é?


De António Bastos a 27 de Abril de 2009 às 23:08
Aí está um motivo para uma mais uma barrigada de conversa, caro amigo! Assim que seja possivel.
Um forte abraço


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