Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

 

Os recentes desenvolvimentos da novela em redor do acordo entre a FSSPX e a Santa Sé são absolutamente chocantes. Foram reveladas duas cartas, correspondência privada entre Mons. Fellay e os restantes bispos da Fraternidade: numa, Tissier, Galarreta e Williamson pedem ao seu superior-geral que não aceite o acordo; noutra, Fellay responde em sentido contrário (traduções no Fratres in Unum). Pelo que o Rafael Castela Santos escreve n' A Casa de Sarto, estas missivas chegaram às mãos de algumas pessoas ainda antes de surgirem num fórum. Portanto, acabaram por chegar igualmente a mãos erradas.

 

Esta situação é muito preocupante, essencialmente por duas razões. Primeiro, porque a devassa da vida privada e a quebra da confidencialidade são, obviamente, crimes e um pecado que a própria Fraternidade já condenou formalmente - o Rafael dá a entender ter sido levado a cabo por um sacerdote interno (!), provavelmente hispânico, e sai em defesa de Williamson no que respeita às suspeitas que sobre ele recaíram. Segundo, porque avoluma a verdadeira preocupação de quem está a favor da reconciliação: o cisma.

 

Se, em tempos, escrevi noutro espaço que, como tantos, pensava que a resolução canónica poderia ser uma armadilha, há muito que não posso deixar de concluir que não só não o é como estamos no momento certo para escutar o apelo de Deus através de Pedro. Mons. Fellay argumenta bem esta certeza na carta que enviou aos seus companheiros e demonstra-lhes ter também aquela mesma preocupação, agora certamente acrescida, de que uma divisão interna na Fraternidade motivada pela elevação a prelatura pessoal possa gerar um grupo marginal, movido por obediências pessoais a este ou aquele prelado, e por um certo sentimento anti-papista que é mais próprio do padre Cekada que de outra coisa qualquer...

 

A FSSPX tem a infelicidade de acolher nas suas capelas muitos simpatizantes de um sedevacantismo implícito, geralmente acompanhado de uma das piores maleitas que grassa pelo tradicionalismo, que é aquilo a que podemos chamar de orgulho espiritual. Este orgulho, que inspira em muito a posição sedevacantista, tem levado muitos a, na prática, encararem a Fraternidade como sendo a Igreja ("eles têm os templos, nós temos a fé", ouvi mais do que uma vez em Lisboa). Ora a Fraternidade não é a Igreja, toda ela, mas é Igreja. E é por isso que uma posição de separação formal será sempre indesejável. Se anteriormente a separação foi repetidamente necessária para poder levar avante uma acção de legítima desobediência (ela era desobediência em si), hoje, perante a possibilidade apresentada por Bento XVI, não faz mais sentido a não ser numa perspectiva errada quer da FSSPX quer do que é ser Igreja. A não ser, enfim, numa perspectiva suicida.

 

Lefebvre queria tanto tudo o que levou ao estado de necessidade, como ansiava por uma janela de oportunidade para acabar com esse pesado estigma. Neste caso, Roma abriu a janela, a porta e, sobretudo na pessoa do Sumo Pontífice, o próprio coração. Um coração sedento de tradição, como o atesta o movimento litúrgico e crítico do CVII que se desenvolve cada vez mais, e necessitado de uma força viva como a Fraternidade é e pode vir a ser. Este pontificado, a Igreja, chama a FSSPX precisamente quando são os modernistas que se levantam em posição de ruptura, como na Áustria.

 

Se os bispos Tissier, Galarreta e Wiliamson julgam vir a encontrar um Papa perfeito de quem não consigam levantar a mínima suspeita ou objecção, que esperem sentados. Só não levem os fiéis, os seminários, os sacerdotes e os consagrados da FSSPX para esse buraco sem fundo de exclusão, de dor e de perdição de almas. Poderemos ser levados a pensar que, havendo males que vêm para bem, acabaremos por separar o trigo do joio dentro da Fraternidade. Mas como, sabendo as consequências que isso acarretará?

 

Rezemos para que Fellay consiga manter a obra de Mons. Lefebvre unida para além de qualquer inevitabilidade de deserção. Rezemos muito! Que a Senhora do Rosário de Fátima nos auxilie, perdoe a quem deu a conhecer as cartas e nos acompanhe no caminho para Roma.



publicado por Afonso Miguel às 18:20 | link do post | comentar

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