Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

A instrução que o Santo Padre fez publicar no dia 13, datada da memória litúrgica de São Pio V, já seria de profundo significado se atentássemos apenas a estas datas. Dá-la a público na grande festa mariana de Maio, depois de assinada a 30 de Abril, é por si só bastante para depreendermos a importância fulcral com que é apresentada ao mundo católico, sobretudo aos milhares de fiéis que, unidos a Bento XVI, têm remado contra ventos e marés em prol da restauração da grande ars celebrandi do agora Rito Extraordinário da Missa.

 

O nome da instrução não é menos significativo. Ele aponta, inequívoca e previamente, a abrangência do que nela é disposto: é para a Igreja universal, sem excepções, desde a mais proeminente basílica romana até à mais remota capela do Alentejo profundo.

 

Há vários pontos a reter. Aos já enumerados pelo amigo JSarto, tenho apenas a acrescentar:

 

1º - O ponto 18 é de especial importância. A instrução clara da aceitação sem reservas de grupos de peregrinos que se apresentem acompanhados de um sacerdote idóneo, abre grandes possibilidades em todos os santuários ou outros locais de romagem, que se poderão converter progressivamente em pontos de encontro tradicionalistas. Julgo, contudo, que a Comissão Ecclesia Dei poderia ter ido mais longe nesta matéria, propondo que os grandes santuários - Fátima, por exemplo -, tivessem o referido sacerdote internamente e em permanência, celebrando com regularidade a Santa Missa tradicional.

 

2º - O ponto seguinte, que ordena a recusa de pedidos de quem pertença ou apoie "grupos que se manifestam contrários à validade ou à legitimidade da Santa Missa ou dos Sacramentos celebrados na forma ordinária", pode levar a atropelos sistemáticos da vontade expressa no Summorum Pontificum, com acusações infundadas e generalizadas de fundamentalismo religioso, com o único intuito de proibir o Missal de João XXIII. E se apelidam sistematicamente a FSSPX de sedevacantista, não será precipitado prever que o mesmo venha a suceder com muitos grupos que se apresentem aos seus párocos e bispos, ou em locais onde peregrinem.

 

3º - O ponto 10 assegura aos fiéis o poder da Comissão Ecclesia Dei quanto aos "recursos administrativos a ela legitimamente remetidos, na qualidade de Superior hierárquico, mesmo contra uma eventual medida administrativa singular do Ordinário que pareça contrária ao Motu Proprio". Ou seja, na eventualidade dos casos acima referidos (ou semelhantes), existirá sempre a possibilidade de recorrer a Roma para desautorizar decisões incorrectas por parte da hierarquia local, o que se constitui como instrumento precioso contra os modernistas da nossa praça.

 

No global, a instrução é excelente e desfaz os receios que circularam na blogosfera tradicionalista internacional. Ela abre novos horizontes ao Summorum Pontificum, impulsionando e facilitando em muito os nosso esforços restauracionistas. Sobretudo, vem pôr em ordem a aplicação concreta do Motu Proprio e esclarecer a vontade soberana do Sumo Pontífice.

 

Esperemos pois que finde, em definitivo, o bloqueio à Tradição Católica.



publicado por Afonso Miguel às 15:40 | link do post | comentar

2 comentários:
De JSarto a 17 de Maio de 2011 às 02:03

O ponto 19 da Instrução é a meu ver o grande calcanhar de Aquiles desta, e é certo que irá ser invocado nas dioceses até agora hostis à aplicação do “Summorum Pontificum”, com a finalidade de continuar a entravar tal aplicação; ademais, parece-me ser uma alfinetada subtil - ou nem tanto… - à FSSPX. É certo que esta última jamais negou a validade teórica do “Novus Ordo”, realçando antes a sua grande imperfeição face à doutrina tradicional católica sobre o Santo Sacrifício da Missa, numa abordagem muito semelhante à que Monsenhor Klaus Gamber defendia e que o actual Papa Bento XVI sobraçava. Sobre tal abordagem, publiquei em tempos dois artigos no meu blogue; deixo-te aqui e agora as ligações:


http://casadesarto.blogspot.com/2008/08/monsenhor-klaus-gamber-e-questo-da.html (http://casadesarto.blogspot.com/2008/08/monsenhor-klaus-gamber-e-questo-da.html)


http://casadesarto.blogspot.com/2008/09/ainda-monsenhor-klaus-gamber-e-questo.html (http://casadesarto.blogspot.com/2008/09/ainda-monsenhor-klaus-gamber-e-questo.html)


Ora, se a questão da validade do “Novus Ordo” não parece suscitar problemas de maior, tenho a maior dificuldade em perceber o que se pretende quando se faz referência à legitimidade do mesmo? Legitimidade face a quem ou ao quê? Legitimidade do Papa para promulgá-lo? Legitimidade face à tradição católica? Manifesto a minha perplexidade… Será pois de inteira conveniência que a “Ecclesia Dei” esclareça com toda a urgência o alcance de tal qualificação, sob pena de um dos principais objectivos do “Summorum Pontificum”, paradoxalmente, poder ser frustrado - o de obter a paz interna na Igreja, mediante o fim da “guerra” dos ritos.



De Afonso Miguel a 18 de Maio de 2011 às 22:20
Também não entendo muito bem o quer a Ecclesia Dei que entendamos por "legitimidade". Quero, contudo, crer que devemos ler este ponto como salvaguarda a fiéis que, por pertencerem a determinada organização ou individualmente, classifiquem o rito moderno de imperfeito ou tendencialmente erróneo, ainda que reconheçam a sua validade sacramental. Ainda assim, sem esclarecer o que se pretende, a Ecclesia Dei abre portas a uma interpretação abusiva, pelo que devia, em meu entender, publicar uma nota explicativa sobre esta matéria.

Se a leitura correcta do ponto 19 for a que aqui aponto, pode então tratar-se de "legitimidade face à tradição católica", como apontas no teu comentário, julgando que por "tradição católica" se deva tomar apenas a tradição litúrgica, com a qual entram em profundo choque os hábitos que se instalaram na celebração do Novus Ordo. O meu próximo post pode ir nesse sentido...


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