Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
O Nuno Castelo-Branco apela a uma união desejada há muito, mas não sei se será possível. Aliás, desconfio sempre que não haja qualquer oportunidade de união política entre homens que não partilhem uma mesma vontade, sejam movidos por um mesmo objectivo e estejam fiéis a um mesmo ponto de partida mínimo que dê um mesmo sentido a formas distintas de alcança-lo. Duvido que isso possa ser uma realidade, por mais que vejamos, todos os dias, malogradas tentativas de conciliar o inconciliável, como é hábito no regime em que vivemos. No caso dos monárquicos portugueses - e não só - há discórdias tão sérias, e simultaneamente tão disfarçadas perante os que avaliam a situação de fora, que tenho de temer o pior por mais que isso sirva em muito esta república democrática e seus fins.

Antes de continuar devo ressalvar que, neste assunto, não represento aqui nenhuma "escola de pensamento". O facto de me associar a uma, não significa que o que escrevo possa a ela ser imputado, sem mais. É certo que muitos erros e incorrecções são encontrados neste blog, sem que isso tenha que prejudicar o tradicionalismo monárquico e católico em si. Mais do que tudo, este é um espaço de reflexão, ainda que por vezes provocador e radical na linguagem. Tento assim incitar à boa polémica, ao debate de ideias e ao esclarecimento de posições. Infelizmente, ainda que reconheça não estar à altura de determinadas contendas, não vou encontrando a seriedade que esperava, como recentemente forcei a que se verificasse.

Mas vamos ao que penso sobre a tal união entre os que se dizem monárquicos. E devo começar por admitir que, de um ponto de vista meramente prático, seria bastante salutar que essa união se desse definitivamente. Num primeiro plano, perspectivar-se-ia uma crescente acção e visibilidade da chamada “questão do regime” na agenda mediática. Sobretudo, era importante que o favorável tempo que percorremos, com o centenário republicano à porta, fosse aproveitado para essa finalidade. Por outro lado, há uma questão absolutamente incontornável e que minaria qualquer possibilidade de entendimento futuro – já que actualmente não existe de todo. Falo, obviamente, das razões que nos levam a querer a queda da república.

É neste segundo plano que reside todo o problema. Existe um entrave que me parece inultrapassável e que dificulta o entendimento que, repito, seria precioso para aquilo que considero ser imprescindível para que se encontrem resultados: acção directa, que nos fizesse mais participantes do espaço destinado à “opinião pública”. Esse problema, que é de fundo, é pois o de não termos as mesmas razões, muito menos os mesmos objectivos, quando nos declaramos monárquicos. Porque sejamos sinceros: alguém que sustente a ideia de uma monarquia parlamentarista e não confessional muito dificilmente encontra semelhanças com um monárquico integralista, a não ser numa certa estética. Ou seja, um demo-liberal vê a monarquia como melhor forma de funcionamento da democracia liberal, enquanto um integralista assenta o seu discurso na persecução de um outro regime, baseado numa outra lógica civilizacional e filosófica. Resumindo, uns querem o rei como árbitro do poder popular, sustentando que este emana do povo segundo o culto da heterodoxia (sendo o número factor de decisão sobre a opinião dominante), e outros rejeitam completamente essa visão moderna, para apontar a monarquia precisamente como a melhor garantia do seu inverso.

Não basta portanto que ambos os lados digam que pretendem uma monarquia constitucional. Mais, que aleguem que isso é já por si um factor determinante para que haja um elo suficientemente forte e não se dê a divisão. Dizer que o povo detém o poder é substancialmente diferente de acreditar que este procede única e exclusivamente de Deus, que a Sua Igreja é a Católica, por Ele fundada, e que essa espada espiritual eclesial deve em tudo legitimar e auxiliar a espada terrena portuguesa para que a comunidade encontre o bem comum mergulhando no Bem do Outro. Esta segunda perspectiva não aceita que a constituição seja colocada à mercê daquela heterodoxia militante, sob pena de poder ser alterada conforme a vontade das massas. Pelo contrário, quer salvaguardar a sua fonte fazendo-a estabelecer-se segundo um critério ortodoxo, dogmático, que só a Igreja deposita em si com especial mandato de Cristo.

Creio ser esta a grande questão e o motivo de tão grande divisão entre nós. E não vejo de que forma se pode conciliar quem pense vir o poder de baixo com quem não duvide vir o poder de cima; quem pense que a legitimidade de determinada posição prevalecer como boa se encontrada num simples consenso popular que não esteja limitado pelo critério superior, com quem afirme, com Fé inabalável, que a legitimidade do que é bom não subsiste na força bruta da maioria mas nesse outro critério que é a insubstituível génese cristã da nossa Pátria.

Ainda assim, existe um argumento que, embora me pareça desprovido de grande razão, poderia levar a que integralistas e demais pessoas com posições próximas se colocassem lado a lado com democratas: o mal menor. Sabendo que é de longe impensável que determinadas ideias vinguem a curto e médio prazo (somos muito realistas nesse aspecto), optassem por apoiar uma solução que mais se acerca da restituição da legitimidade dinástica e da independência supra-partidária da Casa Real. No entanto, não teria isso que significar que toda a anterior questão se submetesse a um pragmatismo que poderia resultar num vazio? Não desdenharíamos o dever em prol da conveniência momentânea? Até que ponto a situação é grave para que abramos mão de tudo e nos posicionemos pela coroação da democracia? Até que ponto a democracia real vale a pena, em detrimento da monarquia? Que "doutrina" seria a nossa? Que "vitória" teríamos? O que é afinal o "essencial"? O que é a monarquia?...

Eis o que queria deixar em aberto e eis porque penso que uma união só é viável no caso de Portugal não mais conseguir a paz sem os Bragança. Dirijo-o especialmente ao Nuno e ao Corcunda, esperando que o aceitem e desenvolvam.

***

A propósito, leiam o último post no Pasquim da Reacção, que espelha bem porque levanto estas preocupações.


publicado por Afonso Miguel às 20:02 | link do post | comentar

5 comentários:
De Nuno Castelo-Branco a 8 de Maio de 2009 às 17:32
Compreendi muito bem e não estou surpreendido. Pelos vistos, exprimi-me mal. Apenas pretendia o silêncio relativamente a guerrilhas sem nexo. Paciência.


De Afonso Miguel a 8 de Maio de 2009 às 17:55
Meu caro amigo,

Deixa-me que te diga que não considero que estas "guerrilhas" (como lhes chamas) sejam sem nexo. Que podem prejudicar-nos, podem, especialmente no sentido prático de que falei. Mas também podem ser preciosas para, depois de alguma barafunda, estabelecermos bem o que a curto-médio prazo podemos fazer todos em conjunto, sem ferir posições de lado a lado.

Quanto à questão de fundo, é esta: um monárquico tradicionalista acha que não vale a pena restaurar a monarquia se o regime permanecer o mesmo, e o regime é a democracia parlamentar e partidocrática. Considera que, assim sendo, não há restauração absolutamente nenhuma, embora aparente existir, porque encara a monarquia como o regime em si, com todas as implicações que dai vêm. O que um tradicionalista (ou legitimista) quer não é a monarquia como fim, mas como meio. E os fins que nós pretendemos são bem distintos dos que já são favorecidos com a república existente. O problema é esse. E portanto não me parece que seja de descartar o debate sobre estas matérias. Isso seria um erro grave. Agora, que isso impeça que nos entendamos, encontrando pontos comuns, e que daí partamos para uma acção directa, digo que não, não impede. Nesse aspecto não somos propriamente uma Junta Central, mas também não queremos mais do mesmo, com rei ou sem rei a coroa-lo... É pena que muita gente não entenda isto, e por isso será importante ir debatendo ao longo do tempo.


De Nuno Castelo-Branco a 9 de Maio de 2009 às 23:59
O que se deve evitar, é a repetição dos erros que nos últimos 130 anos beneficiaram certa gente.


De António Bastos a 11 de Maio de 2009 às 23:44
Muito bom texto, amigo Afonso, e de grande realismo. Infelizmente nem sempre tennho acesso à internet e tempo para participar neste estimulante debate. Naturalmente compartilho do teu ponto de vista. A "monarquia à inglesa" custou-nos caro e a vida do próprio monarca, porquê repeti-la? Zapatero destroi tranquilamente tudo o que resta de cristianismo em Espanha perante a passividade constitucionalmente obrigatória do Rei. É isto que queremos para Portugal?
Um abraço


De Afonso Miguel a 12 de Maio de 2009 às 00:55
Exacto António. Para que serve o "regime monárquico" em Espanha se os socialistas governam? Ou em Inglaterra, se os trabalhistas estão no poder? Para enfeitar? Para encher as página da imprensa cor-de-rosa?...

Um forte abraço


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