Terça-feira, 22 de Março de 2011

 

Surgiu num comentário do Fratres in Unum um e-mail enviado pelo vigário-geral da Diocese de Setúbal a um fiel leigo, no seguimento de um pedido pessoal endereçado ao bispo local, D. Gilberto Canavarro dos Reis, requerendo que fosse celebrada Missa Tradicional para um hipotético grupo diocesano de tradicionalistas. Esse e-mail, datado de 16 de Dezembro de 2010, responde negativamente, invocando duas razões habituais nestes casos.

 

Em primeiro lugar, considera o vigário, Pe. José Lobato, que os bispos locais podem ainda permitir ou não o uso do Missal do Beato João XXIII, admitindo que o episcopado português chegou a consenso sobre a não autorização da liturgia tradicional em território nacional (!); em segundo, apresenta uma leitura sempre curiosa do artigo quinto do Summorum Pontificum, no que este se refere aos "fiéis aderentes à precedente tradição litúrgica". De facto, os nossos bispos não só não podem decidir não haver necessidade de reabilitar a Missa de Sempre, quando  ainda por cima constatamos que a mesma foi proibida e hostilizada pelos mesmos desde o CVII, sendo eles os principais responsáveis pelo desinteresse generalizado. Por outro lado, só a desinformação que insistem em manter sobre as possíbilidades do motu proprio pode explicar que grande parte dos portugueses católicos não conheça sequer o documento papal. A maioria dos fiéis que assiste com regularidade ao Novus Ordo tem idade suficiente para ser enquadrada nos que pertenceram à "precedente tradição litúrgica", só a tendo abandonado por causa daquela hostilização e proibição que a revolução litúrgica impôs.

 

A recusa em acolher pedidos deste género tem sido sistemática em Portugal. E parece que os motivos estão previamente estabelecidos pela Conferência Episcopal que, à margem do que estabelece o Summorum Pontificum, se arroga no direito de "decretar" não existir qualquer razão para a aceitação da Missa Tridentina, considerando que o restabelecimento da mesma geraria divisão. Afirmar que "não existe entre nós, de forma significativa, tradição da liturgia antecedente ao Missal de S.S. Paulo VI", não só é um tiro no pé, como já constatámos, como nos faz questionar o que seria afinal verdadeiramente significativo para que os bispos portugueses, quiçá através de motu proprio, permitissem que os seus sacerdotes celebrassem no rito em que eles mesmos foram educados na Fé. Teremos de apelar a Roma, reportando que quando um fiel demonstra ser aderente à "precedente tradição litúrgica" e informa a sua diocese de que existe um grupo de interessados, a resposta é negativa, sem que as autoridades eclesiásticas queram saber de quem se trata e quantos são? Teremos de nos organizar a nível nacional para que a Santa Sé oiça a nossa voz?

 

A consequência óbvia desta situação com a Diocese de Setúbal foi o desmantelar do referido grupo de tradicionalistas. Aliás, esse grupo fora formalmente extinto ainda antes do envio da correspondência que mereceu a resposta negativa por parte do vigário-geral, devido à pressão que lhe foi imediatamente colocada. Segundo fui informado, em 2009 tinham pedido a um padre diocesano que lhes cedesse uma capela para que um sacerdote de fora pudesse celebrar. A reacção dos seus colegas de presbiterado foi tal, que este acabou por ter que "esquecer" o assunto...

 

***

 

O e-mail, conforme tornado público no Fratres in Unum:

 

From: Página (pagina@diocese-setubal.pt) Sent: Thursday, December 16, 2010 6:00:55 PM To: rui machado (rui-machado@hotmail.com)
Ex.mo Senhor
Rui Machado
 
Sua Santidade Bento XVI concedeu, em Motu Proprio de 2007, a graça de, em alguns lugares onde existissem católicos de tradição litúrgica mais antiga, se usar o chamado Missal do B. João XXIII: “Art. 5, § 1. In paroeciis, ubi coetus fidelium traditioni liturgicae antecedenti adhaerentium stabiliter exsistit, parochus eorum petitiones ad celebrandam sanctam Missam iuxta ritum Missalis Romani anno 1962 editi, libenter suscipiat. Ipse videat ut harmonice concordetur bonum horum fidelium cum ordinaria paroeciae pastorali cura, sub Episcopi regimine ad normam canonis 392, discordiam vitando et totius Ecclesiae unitatem fovendo.” Na Carta que, pela mesma altura Sua Santidade enviou aos Senhores Bispos, confiou-lhes algumas orientações que eles têm seguido na decisão de permitirem ou não o uso do referido Missal. No nosso País, os Bispos têm manifestado o consenso de que não existe entre nós, de forma significativa, tradição da liturgia antecedente ao Missal de S.S. Paulo VI. Não há, pois, razões para que na Atalaia, ou noutra paróquia da Diocese de Setúbal, se celebre em rito diferente daquele que é normal: o do Missal de S.S. Paulo VI. Acresce que o rito anterior utiliza a língua latina que, como V. Exª sabe, é infelizmente desconhecida por quase todos os praticantes católicos. A intenção de S. S. Bento XVI de, com a graça concedida pelo referido Motu Proprio, servir a unidade da Igreja, teria aqui efeitos contrários, pois viria trazer, em território em que não existem ou não têm relevância os referidos “coetus fidelium traditionis liturgicae antecedenti”, a divisão em  vez de unidade.
 
Com os melhores cumprimentos, na expectativa do Natal do Senhor, que nos vem trazer a paz e a unidade verdadeiras.
 
P. José João Aires Lobato
Vigário Geral



publicado por Afonso Miguel às 16:20 | link do post | comentar

12 comentários:
De JSarto a 22 de Março de 2011 às 23:07
Caro amigo, esta resposta da diocese setubalense impressiona negativamente pelo cinismo farisaico que a imbui no seu todo.


De Afonso Miguel a 22 de Março de 2011 às 23:20
O curioso é terem feito tábua-rasa da hipotética existência de um grupo tradicionalista, sem sequer quererem saber o número dos envolvidos e respondendo - cúmulo dos cúmulos! - que «não existem ou não têm relevância os referidos “coetus fidelium traditionis liturgicae antecedenti"»!O que nos levaria a questionar que sentido e relevância terão comunidades paroquiais em que o povo conta, por vezes, com menos de dez fiéis a assistirem ao Novus Ordo.


De JSarto a 23 de Março de 2011 às 00:05
A forma como interpretam restritivamente o conteúdo do "Summorum Pontificum", quando não o fazem de modo puramente "contra legem", é chocante e bem reveladora de uma terrível má fé e de uma atroz desonestidade intelectual.


De Afonso Miguel a 24 de Março de 2011 às 19:38
E, repito, virando costas à possibilidade de existência de um grupo interessado. No mínimo, teriam a obrigação de querer saber quem são, de receber o referido grupo, de o ouvir, ao abrigo do disposto no motu proprio. Mas não, nem uma palavra nesse sentido. Não querem conhecer o rebanho!

Como diz Mons. Bux: "É claro que os pastores da Igreja, em primeiro lugar os bispos e os párocos, embora muitas vezes dizendo que devemos ser capazes de captar os sinais dos tempos, uma expressão muito em uso após o Vaticano II, muitas vezes não conseguem entender que os sinais dos tempos não são definidos por eles, mas que acontecem e são regulados principalmente pelos jovens."

Se fosse um grupo, mesmo que insignificante, de alguma corrente de espírito modernista, de certeza que a reacção seria bem diferente...


De António Bastos a 23 de Março de 2011 às 09:56
Se bem que sabendo da oposição sistemática que é feita à Missa Tridentina, ler algo assim onde essa mesma oposição está tão cinica e manisfestamente exposta não deixa de impressionar e chocar naturalmente. Estamos de facto entregues a falsos pastores.


De PR a 24 de Março de 2011 às 11:55
Roma tem que saber o que se passa. Veio cá o Papa e todos fingiram que eram muito fiéis. Mal o Papa vira costas, volta tudo ao mesmo.
Os leigos em Portugal são ignorantes e o clero quer que continuem a ser. Se alguém tenta fazer alguma coisa, mandam - nos calar.
Já chega. Temos que levantar -nos e lutar. Para Roma é que é o caminho. Talvez uma carta para a Congregação para o Culto Divino, para a Congregação para os Bispos e para a Congregação para o Clero. Que tal?
Não podemos esperar que os bispos actuais morram todos para a Igrja melhorar em Portugal. Eles ainda podem durar muitos anos.


De Afonso Miguel a 24 de Março de 2011 às 19:31
Recebido de uma leitora, através do Facebook:

Como não consigo responder online ao seu artigo deixo-lhe aqui o que escrevi:


Assisti, desafiada por uma amiga, a uma catequese do Bispo de Setúbal no passado Sábado e pelas suas palavas pareceu determinado em investir no Movimento Neo-Catecumenal.

Parece simplista a razão apontada de "não saberem Latim" - aprendam Latim e reaprendam o Missal.

Agora depois de abrir os olhos continuarão a tolerar o que hoje toleram? Não estará aí a razão da negação?

Cumprimentos,

AnaSofia


De PR a 25 de Março de 2011 às 11:54
Veja isto:

Summorum Pontificum is part of the universal law of the Church and that therefore the Bishops must do what it requires them to do, such as make the usus antiquior available when groups of the faithful request it.
 

http://the-hermeneutic-of-continuity.blogspot.com/2011/03/latest-buzz-on-pecd-instruction.html (http://the-hermeneutic-of-continuity.blogspot.com/2011/03/latest-buzz-on-pecd-instruction.html)

Portanto eles não podem dizer que não.


De Afonso Miguel a 25 de Março de 2011 às 12:30
Claro que não podem dizer que não. Muito menos, como neste caso, perante a possibilidade de existir um grupo organizado, olhar para o lado como se nada fosse, alegando que este, mesmo existindo, não tem relevância. É uma vergonha. Roma que ponha os olhos nisto, e depressa. Urge que se faça alguma coisa nestas terras de Nossa Senhora da Anunciação.

Cumpts.


De Pedro a 27 de Março de 2011 às 22:27
A posição do episcopado português é vergonhosa.
Rezemos pelos Bispos portugueses que não estão a apascentar as suas evelhas
Pedro


De Afonso Miguel a 29 de Março de 2011 às 19:26
Rezemos muito! Mas também necessário acção.


De lopez a 29 de Março de 2011 às 13:55
é uma péssima notícia.


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