Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

 

Uma das consequências mais nefastas da invenção do Novus Ordo, fruto e prova da profunda ruptura que este trouxe e representa, é a diabolização do estudo pormenorizado e denso que a Igreja desenvolveu, ao longo de séculos, sobre a Liturgia. A "Missa nova", sendo um rito distinto e não apenas uma reforma do anterior (como em tempos se quis fazer crer), veio suprimir quase por completo a necessidade de uma formação profunda acerca dos conteúdos e das formas, bem como sobre a convivência da precisão teológica com a exactidão dos gestos e das palavras. O actual rito romano ordinário é, estruturalmente e por si só, bastante para que o sacerdote, munido do conhecimento das normas gerais e inspirado por alguma criatividade local, temporal ou pessoal, celebre "correctamente". A beleza celeste e universal da teatralidade litúrgica, resultado de anos de evolução e adaptação, dá lugar ao espectáculo privado da comunidade reunida.

 

Os seminários diocesanos são a grande sementeira desta amnésia forçada face a uma riqueza com quase dois mil anos de continuidade. Celebrado de forma singularíssima no grande Concílio de Trento, o tesouro impar da tradição litúrgica eclesial quase não é estudado para além da perspectiva histórica, como se o passado fosse ele próprio objecto de diabolização. E é esta, na verdade, grande parte do Cavalo de Tróia que entrou na Igreja. É o culto da modernidade...

 

Vem isto a propósito de uma série de características da liturgia tridentina que gostava de partilhar convosco, em jeito de reflexão sobre a qualidade extraordinária do rito latino "de sempre". Muitas já conhecerão e recordarão, outras serão novidade. Confesso que eu mesmo só tomei conhecimento do verdadeiro sentido de algumas há relativamente pouco tempo.

 

***

 

Kyrie eleison

 

O primeiro conjunto de características peculiares e esquecidas pela revolução do CVII diz respeito ao Kyrie eleison (Senhor, misericórdia!), parte do que hoje vulgarmente conhecemos por "Acto Penitencial". Esta prece terá sido adaptada da liturgia grega de Constantinopla nos séculos IV ou V. Mais tarde, o Papa São Gregório Magno, pai do canto gregoriano, reduziu-a no século VI a um conjunto de nove repetições, sendo que as três primeiras seriam dirigidas a Deus Pai, a quarta, quinta e sexta a Deus Filho, e as três últimas a Deus Espírito Santo. Assim, o corpo do Kyrie eleison passou a ser:

 

Kyrie eleison, Kyrie eleison, Kyrie eleison. Christe eleison, Christe eleison, Christe eleison. Kyrie eleison, Kyrie eleison, Kyrie eleison.

 

Recitado ou cantado (por exemplo, o da Missa VIII do Kyriale) imediatamente antes do Glória in excelsis (alternado entre o celebrante ou a schola cantorum e o povo), serve de oração penitente para os que se aproximam do altar do Senhor (Kyrie), cujo Filho unigénito (Christe) encarnou pela graça do Espírito (Kyrie). Três preces distintas, para cada uma das pessoas, também elas distintas, da Santíssima Trindade. E em cada uma delas a prece é tripla, como que significando novamente a Trindade divina, formando um só corpo, como Deus é um só.

 

É à presença de Deus que o sacerdote, restantes ministros sagrados e o povo se propõem chegar. A uma presença real, substancial, como aquela que viveu S. Pedro, o apóstolo que negou Jesus três vezes antes de este se entregar à morte, e dos três pecados se arrependeu. Desta forma, o Kyrie eleison pode assumir até um significado evangélico directo, reportado para a nossa vida, e para os pecados com os quais negamos o Salvador, o mesmo arrependimento petrino que é o de toda a Igreja. Fazemo-lo, igualmente, antes de Cristo se entregar por nós no santo sacrifício da Cruz, perpetuado no altar católico.

 

De outra forma vivem também os anjos na presença de Deus, glorificando-O e servindo-O sem cessar. São Tomás de Aquino, entre outros, ensina-nos, na Summa Theologica, que estes se dividem em nove coros angelicais: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos. Ora, estas divisões categóricas correspondem a acções específicas, como a dos Arcanjos, conhecidos como os mensageiros de Deus. Não por acaso, o "Senhor, misericórdia!" é repetido por nove vezes. No fundo, pode tratar-se de querer a expiação dos pecados para poder louvar a Cristo como e com os coros dos anjos, no Santus ("Quam laudant Angeli atque Archangeli, Cherubim quoque ac Seraphim: qui non cessant clamare quotidie, una voce dicentes: Sanctus, Sanctus, Sanctus"... ", Prefácio da Santíssima Trindade).

 

Mas uma das explicações mais interessantes sobre a estrutura do Kyrie eleison pode ser encontrada num livro do Padre James Luke Meagher, de finais do século XIX, onde é ligado, em quantidade, à qualidade dos pecados. Resulta nestas correspondências:

 

Kyrie eleison - Pecado original

Kyrie eleison - Pecado Venial

Kyrie eleison - Pecado Mortal

Christe eleison - Pecado por pensamentos

Christe eleison - Pecado por palavras

Christe eleison - Pecado por actos

Kyrie eleison - Pecado por malícia

Kyrie eleison - Pecado por fraqueza

Kyrie eleison - Pecado por ignorância

 

A oração Confiteor, que antecede o Kyrie eleison, refere precisamente alguns destes pecados: "... quia pecavi nimis cogitacione, verbo et opere".

 

Infelizmente, hoje o papel deste prece e das suas características teológicamente tão relevantes, é pouco apreciado. Muitos sacerdotes omitem-na pura e simplesmente, ou preferem adaptações que o Novus Ordo introduziu de forma a substituir a recitação do Confiteor. Uma consulta rápida ao ordinário da "Missa nova" revela até onde chegou a criatividade conciliar em relação ao Kyrie eleison.



publicado por Afonso Miguel às 21:31 | link do post | comentar

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